Em outras palavras, mais objetivas e numa linguagem que fala mais de perto ao coração e às mentes dos homens das áreas de planejamento, produção e vendas das montadoras, 13,5 milhões eram pessoas que estavam tentando chegar a seu primeiro carro, mais de metade das quais (54%) mulheres.
A experiência prática mostra que apenas parte, talvez pequena parte desta intenção de compra será efetivamente transformada em compra real. Todavia, a julgar por este fantástico potencial, a indústria automobilística instalada no País não deverá ter maiores dificuldades para cumprir sua meta de produzir e vender, neste ano, cerca de 3,6 milhões de unidades.
Além disso, a pesquisa mostra claramente que somado ao fato de cada vez mais novos consumidores estarem sendo agregados à classe C é porcentualmente cada vez maior, dentro desta mesma classe C, o universo dos empenhados em chegar ao carro próprio. Empenhados em ter um carro, novo ou usado, que possa apresentar para a família, parentes e amigos como prova irrefutável de que agora conseguiu, enfim, passar a fazer parte do restrito universo daqueles que têm o direito de ir e vir pelo caminho que escolher e, sobretudo, na companhia de quem desejar. E é justamente este crescimento duplo e simultâneo, capaz de transformar qualquer projeção aritmética em geométrica, que parece indicar, também, que as vendas deste setor no Brasil possam, de fato, apresentar crescimento constante, nos próximos cinco a dez anos, de pelo 5%, em média, ao ano.
Ou seja: mais uma vez falando naquela linguagem que os executivos do setor adoram, sobretudo na hora de negociar novos investimento com a matriz, é bastante provável que Cledorvino Belini, presidente da Fiat e da Anfavea, esteja sendo até um pouco conservador quando projeta que até o fim da década o mercado brasileiro poderá estar consumindo seis milhões de veículos novos por ano. Ao menos em teoria, tudo parece fazer sentido e apontar nesta direção:
• os fundamentos da economia brasileira parecem sob controle;
• a incorporação sistemática e anual
de quase 3 milhões de novos trabalhadores com carteira assinada garante o
aumento
aritmético do mercado;
aritmético do mercado;
• o substancial crescimento da renda
familiar via ingresso de novos membros da família no mercado de trabalho
encarrega-se de tornar geométrico tal potencial de crescimento;
• o descompasso entre oferta e
demanda de mão de obra em todas as áreas tente a garantir aumentos reais de
renda no momento dos dissídios;
• a chegada de novas montadoras tende
a aumentar a concorrência e, assim, manter os reajustes de preços dos carros
abaixo da inflação;
• a gradativa queda das taxas de
juros tende a reduzir o valor mensal das prestações e a manutenção do emprego
favorece a confiança do trabalhador e, em consequência, a decisão de financiar
um bem.
Ficam, porém, algumas dúvidas, angustiantes dúvidas, que certamente devem estar atormentando e rendendo boas noites de insônia para os executivos do setor. Sobretudo daqueles que têm a função de ditar qual deve ser o ritmo atual e futuro de trabalho nas linhas de montagem.
Vamos a elas. Se está tudo tão favorável, por que, então, a necessidade de as montadoras terem de lançar mão, no primeiro semestre, das vendas em larga escala para locadoras como forma de desovar os estoques? Por que, afinal, mesmo com tais vendas para as locadoras, o início deste segundo semestre acabou marcado por férias coletivas? Por que, enfim, nas conversar informais em torno de boas taças de vinho ou copos de uísque, o que mais se ouvia, na segunda quinzena de setembro, dos concessionários e de seus vendedores, a queixa generaliza de que o consumidor estava arredio e, em consequência, as vendas estavam bem mais difíceis e carentes de promoções? Estaria, então, o governo federal certo ao aumentar drasticamente os impostos sobre os importados para impedir que eles tomassem conta do mercado?
Na verdade, para quem conhece um pouco mais a fundo o funcionamento do nosso mercado, nada disso chega a ser uma surpresa. É tudo muito coerente e mostra que se de um lado tudo é favorável, de outro há um tal de new consumidor emergente cuja cabeça ninguém sabe muito bem como funciona. E muito menos o bolso. Feitas as contas na ponta do lápis, a Anef, a entidade que congrega as financeiras da montadora, constatou que as medidas macroprudenciais adotadas pelo governo federal no fim do ano passado representaram um aumento da ordem de 20% no valor da prestação a ser paga pelo consumidor e, por decorrência, de outros 20% no valor da renda mínimo exigida para a concessão do crédito.
Mais uma vez, é um caso em que o conceito aritmético deve ser substituído pelo geométrico: da forma como a base desta nova pirâmide social está estruturada, com boa parte do universo de consumidores ainda na parte inferior, muito próxima da linha divisória, da base, a única coisa que se pode dizer com certeza é que, ao aumentar a exigência de renda em 20%, o que se tira do mercado é bem mais que 20% do universo total de consumidores em potencial.
Quanto mais? Será 30%, 35% ou 40%? Como jamais foram os consumidores emergentes a puxar o crescimento, não existem livros a serem consultados. E, assim, quem disser que sabe a resposta sem dúvida estará mentindo. Trata-se de regra matemática e econômica que só o tempo e a prática irão demonstrar com certeza. Vale lembrar, também, que se é bem verdade que os dissídios têm garantido reajustes de salários acima da inflação, é igualmente verdadeiro que a inflação neste universo específico de consumidores está bem acima da média nacional e já se aproxima perigosamente dos dois dígitos.
Na base da pirâmide, afinal, o peso no orçamento doméstico dos alimentos e dos serviços é bem maior do que nas classes superiores, aquelas nas quais o setor automotivo antigamente se apoiava e cujas regras de funcionamento todos tão bem conheciam. E não é segredo para ninguém que a inflação no supermercado, no cabeleireiro, na escola, no restaurante dominical, na pizza do sábado à noite, em todos estes casos, está bem acima da média nacional. Já bem perto, de fato, dos dois dígitos, senão acima. Bem acima.
Em resumo, neste novo Brasil, quem tiver como função projetar as vendas e a produção atual e futura de carros, ou mesmo estimar a receita de impostos a ser arrecada com a produção e vendas dos carros, é bom tomar mais cuidados com as medidas macroprudenciais. E, principalmente, passar a vigiar os reajustes promovidos pelo cabeleireiro e, de quebra, acompanhar bem de perto o preço do alface.
Neste novo Brasil, tudo isto passou a concorrer com o automóvel.
Artigo publicado na edição 267 da Revista AutoData, novembro de 2011.
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