terça-feira, 14 de junho de 2011

Dos sapos à piramboia

Agora é oficial: divulgada em meados de maio, a edição de 2011 do índice Word Competitiveness Yearbook — Índice Mundial de Competividade — mostra que enquanto o México subiu da 47º para o 38º lugar da lista, o Brasil fez o caminho inverso: perdeu seis posições e desceu do 38º para o 44º lugar.

Coordenado pelo International Institute for Management Development, IMD, e com seu capítulo brasileiro de responsabilidade da Fundação Dom Cabral, o estudo mostra, ainda, que a China e a Índia permaneceram praticamente na mesma posição – respectivamente 19º e 32º lugares, em comparação com 18º e 31º no período anterior.

Passam a ser três, assim, entre os chamados países emergentes — China, Índia e agora também o México — que figuram nesta lista à frente do Brasil.

E o outro emergente, a Rússia, subiu do 51º para o 49º lugar e, desta forma, seguida as tendências atuais, já ameaça também ultrapassar o Brasil e nos colocar na rabeira da fila.

Este tema, a gradativa, porém firme, perda de poder de competição da industria brasileira, acabou sendo recorrente também ao longo de todo o seminário Compras Automotivas promovido, em maio, por AutoData.

Até porque, conforme sempre lembra Rogelio Golfarb, diretor da Ford, desde os tempos em que era presidente da Anfavea, “quem não consegue ser competitivo para exportar, também não tem como se defender das importações” — como, de resto, já evidenciam as crescentes importações de componentes e, mesmo, de veículos prontos.

Conforme o diagnóstico da Fundação Dom Cabral, que foi apresentado pelo jornal O Estado de S. Paulo em sua edição de 18 de maio, em termos gerais a perda de posição relativa do Brasil neste ranking global deveu-se, fundamentalmente, a três fatores: elevação da inflação, valorização cambial e perda da eficiência na produção.

Neste último caso, por sinal, não tanto devido à performance das empresas — que, tomadas isoladamente, ocupam o 29º em sua listagem específica – mas em decorrência da ineficiência do Estado, cuja colocação não foi além de um quase vergonhoso 55º lugar.

E em se tratando do caso específico do setor automotivo, tomado em particular, conforme ficou evidenciado nas apresentações e nos painéis que compuseram o seminário, a questão envereda por outros caminhos até algo mais complexo e que tornam este quadro não mera questão conjuntural mas, sim, estrutural. E, portanto, de solução mais difícil e provavelmente mais demorada.

A dificuldade maior está no fato de que, com a valorização do real frente ao dólar, este setor perdeu o subsídio indireto que a antiga relação cambial lhe garantia e, agora, está com todas as suas feridas estruturais devidamente expostas e escancaradas. Como complicador adicional, o setor atravessa uma fase em que tem seus custos muito pressionados por baixo — reajustes reais e elevados no custo da mão de obra e das matérias-primas metálicas e petroquímicas.

E, na outra ponta, fruto da nova realidade cambial e da formidável concorrência mercadológica, não tem qualquer possibilidade de repasse de tais aumentos dos custos para o preço final dos veículos, sejam automóveis, comerciais leves, caminhões ou ônibus.

A maior dificuldade para resolver a questão está no fato de que, a rigor, nenhum dos elos da corrente dispõe, de forma isolada, de solução efetiva para o problema. Ou seja, o devido equacionamento da questão depende, fundamentalmente, de uma ação coordenada na qual todos os elos da corrente, governo incluído, se disponham a abrir mão de alguma coisa.

Algo muito próximo, em síntese, da Câmara Setorial Automotiva que já foi acionada, no passado, com excelentes resultados.

Como, porém, conseguir tal união de propósitos em época de pleno emprego, de recordes e mais recordes de vendas e de arrecadação de impostos, além de lembrança ainda recente de balanços fechados com lucros, gordos lucros?

Antes de entrar para sua palestra, Flávio Del Soldato, conselheiro do Sindipeças, comentava que esta era, justamente, a face mais complexa e madrasta da situação.

“Quando se coloca cinco sapos numa vasilha e se toma o cuidado de aquecer vagarosa e gradativamente a água, eles não perceberão o risco, o perigo, e acabarão morrendo todos abraçadinhos”, disse ele. “Este é o nosso risco. Já estamos na vasilha e a água está aquecendo. Devagar, mas aquecendo. Se não conseguirmos interromper em tempo o processo...”.

No início do mês, no encontro da Confraria AutoData, desta vez realizada no Aquário de São Paulo, quando o grupo passou pelo habitáculo da piramboia — peixe pulmonado da região amazônica que, todo ano, passa quatro meses na água e nos outros oito meses, no período das secas, chafurda na lama para sobreviver — um dos executivos presentes logo comparou: “Trata-se, então, hoje, claramente de uma peixe fabricante de autopeças”. Foi uma gargalhada concordante geral.

De fato, em época de recorde e mais recorde de vendas e de pleno emprego, como fazer os sindicatos dos trabalhadores se convenceram de que talvez fosse melhor não se aproveitar das vendas recordes para conseguir PLRs cada vez mais elevados, já na casa de dois dígitos?

E como conseguir, então, convencer as montadoras de que, mesmo com a concorrência imposta pelos importados cada vez mais beneficiados pela valorização cambial, ainda assim algum reajuste no preço dos componentes vai ter de ser aceito para acomodar as pressões dos custos de baixo para cima?

E quanto aos sistemistas, verdadeiros recheios do sanduíche, espremidos que estão entre as montadoras e os descapitalizados pequenos fabricantes de autopeças, como convencê-los de que parte do lucro até agora registrado terá de ser utilizado para ajustar as relações entre as duas pontas, a de cima e a de baixo?

E quanto ao governo, numa época como a atual, de grande necessidade de recursos para investimentos e, sobretudo, infelizmente, para as acomodações políticas que garantam a maioria nas votações no Congresso, como convencê-lo de que reduções de impostos serão indispensáveis para auxiliar na acomodação de todo o complexo?

E ainda na esfera do governo, como convencê-lo a favorecer a inversão da curva cambial numa época como a atual em que a âncora do câmbio é justamente um das últimas barreiras disponíveis para impedir que a inflação saia definitivamente de controle?

Por hora, os seguidos recordes de vendas ainda fazem às vezes de verdadeiras pedras de gelo que continuam permitindo mascarar os fatos reais e concretos de que, daqui para a frente, as vendas serão cada vez maiores e os lucros cada vez menores.

Mas, tal como avisa Del Soldato, grande Del Soldato, a tina já está cheia, os sapos já estão dentro e o fogo já foi aceso. Baixo. Mas o suficiente para apressar o derretimento do gelo e fazer a água começar a aquecer.

Lentamente. É bom lembrar que a época da seca, afinal, pode estar cada vez mais perto. E que a vida de piramboia não deve ser nada fácil. Ou, no mínimo, nem um pouco agradável.

Artigo publicado na edição 262 da Revista AutoData, junho de 2011.