terça-feira, 5 de julho de 2011

Do amendoim para a moto ou o carro

Desde a primeira metade da década passada cerca de 5 milhões de pessoas, em média, vêm sendo incorporadas todos os anos, no Brasil, à classe C  e, por decorrência, à chamada classe média. Desde 2009, conforme constatou a PNDA, Pesquisa de Amostragem de Domicilio do IBGE, esta mesma classe média rompeu barreira inédita e passou a representar mais da metade da população brasileira. Foi o resultado prático da incorporação, de 2003 a 2009, de nada menos do que 29 milhões de pessoas à classe média que, assim, passou a somar no Brasil 94,4 milhões de pessoas.

Pois bem: em maio deste ano, conforme dados da mesma PNDA divulgados pela FGV, a classe C superou a barreira das 100 milhões de pessoas. Com exatos 105,4 milhões de participantes passou a representar 55% da população nacional. Na prática isto significa que, considerado o período de 2003 a maio deste ano, 39,5 milhões de pessoas foram incorporadas à classe C, o equivalente à população da Argentina e a duas vezes à do Chile. 

São 39,5 milhões de novos consumidores. Inicialmente, é claro, apenas de alimentos e eletrodomésticos em geral, além de, na sequência mais imediata, igualmente de melhores vestuários e habitações. E, também, por certo, consumidores no mínimo em potencial de veículos. Talvez, num primeiro momento, apenas de carros usados, bem usados, e motos. Mas, mais adiante, num futuro provavelmente nem tão distante, com certeza também de carros novos.

Fenômeno relativamente recente tanto no Brasil quanto em alguns outros países emergentes, esta rápida e constante incorporação de novos consumidores ao mercado ainda representa campo do conhecimento sobre o qual se tem, ainda, bem mais teorias do que dados ou fatos históricos que possam ser melhor estudados e compreendidos.

No entanto algumas das características destes novos consumidores começam a despontar aqui e ali e merecem, no mínimo, olhar mais atento em razão dos reflexos que certamente virão a ter no mercado de consumo e, em particular, no automotivo. O primeiro ponto que começa a despontar liga-se ao fato de que o crescimento da renda nesta classe C, sobretudo em sua base, dá-se numa progressão quase geométrica, bem acima do que a análise ou as projeções da inflação e dos dissídios coletivos poderiam levar a supor.

São duas as razões desta característica e ambas referem-se a desdobramentos da rapidez com que novos postos de trabalho vêm sendo criados de forma constante no Brasil nos últimos anos – nada menos que do 2,5 milhões a 3 milhões ao ano.

Tal criação de novas vagas de emprego está bem acima da atual capacidade nacional de formar mão de obra na quantidade que seria necessária para atender à demanda.

O primeiro resultado prático desta situação é a conquista, nos dissídios, de reajustes reais de salários equivalentes a até o dobro da inflação, além de PLRs da ordem de cinco ou seis salários médios de cada categoria. O segundo reflexo é a elevada rotatividade dos trabalhadores, decorrência natural da valorização de qualquer funcionário com um mínimo de treinamento e de qualificação para qualquer função. E é claro que trabalhadores só mudam de emprego para ganhar mais ou, no mínimo, ter maiores ou melhores benefícios indiretos.

Há, ainda, um terceiro fator que não raro se soma a estes dois e que é, por si só, o que mais dificulta a projeção de quanto tempo, a rigor, será necessário para que estes novos consumidores dêem o salto dos supermercados e das lojas de roupas para o showroom dos concessionários de motos e automóveis.

Trata-se, no caso, da incorporação de novos ntegrantes de uma mesma família à lista dos contribuintes para a renda familiar doméstica.

Afinal, numa casa em que apenas o homem trabalha o fato de a esposa também conseguir um emprego representa, de imediato, acréscimo dificilmente inferior a 50% com relação à renda doméstica total.  

E quando o filho do casal igualmente consegue emprego a renda familiar pode muito bem dobrar com relação ao momento inicial. Vale ressaltar que, no Brasil de hoje, tudo isto pode muito bem acontecer no curto espaço de um bimestre! Quando muito num trimestre ou, exagerando, num semestre!

Há, todavia, algumas outras características que também começam a despontar nestes recém-chegados ao mundo do consumo que podem não ser assim tão fáceis de lidar.  A começar pelo padrão de exigência de qualidade e de atendimento, surpreendentemente algo superior ao que era até agora vigente.

Médicos e dentistas que atendem por convênio, por exemplo, já perceberam que, com estes seus novos clientes, qualquer atraso diante da hora marcada é sinônimo de encrenca na sala de espera. E encrenca da grossa, com direito a gritaria e reclamações para a empresa titular do convênio.

Ao que tudo indica o padrão de exigência destes novos consumidores liga-se não à realidade vivida pelos antigos consumidores da base da pirâmide mas, sim, ao que se imaginava do que seria a vida nesta faixa de renda.

Ou seja: para estes novos integrantes da classe C esperar para ser atendido é coisa do SUS, dura e indigna  realidade da qual todos ficariam livres quando ganhassem acesso ao convênio médico ou dentário, por mais básico que fosse o plano. Daí as reclamações nas salas de espera.

Ainda na esfera específica do mundo dos cirurgiões dentistas, aqueles que atuam mais na periferia das grandes cidades já perceberam que motos e carros começam a ganhar novos concorrentes no orçamento doméstico. Por exemplo: aparelhos para os dentes.

Eis a constatação: para estes novos integrantes da classe C aparelhos nos dentes passaram a representar símbolo do mais puro status, a mostra aparente de que se está bem na vida o suficiente para poder se cuidar. Ou, no mínimo, para poder cuidar dos filhos.

Vale ressaltar que aparelhos para os dentes nem sempre são cobertos pelos convênios. Neste caso, constatam os dentistas, feito o orçamento, o tratamento torna-se viável por meio de financiamento bancário. Daí a concorrência, no orçamento doméstico, com as motos e com os carros.

Outro exemplo curioso vem do Sul e foi relatado pelo jornalista gaúcho Hélio Gama quando se dispôs a pesquisar a relação desta nova classe C com as escolas privadas. Gama percebeu que, ao constatar que algumas destas escolas, ainda que pagas, eram iguais ou até piores do que as públicas, os consumidores passaram a reivindicar melhorias imediatas.

Melhorias que, conforme também Gama notou, não eram pleiteadas pelos pais dos alunos mais antigos daquela escola pelo simples fato de que eles não dispunham do termo de comparação. E, assim, não sabiam que estavam pagando pela mesma má qualidade que poderiam ter de graça numa escola pública.

Salto direto. É bastante provável, em síntese, que estes novos integrantes da classe C necessitem de bem menos tempo do que as projeções poderiam inicialmente indicar para saltar do amendoim dos supermercados para as motos e os carros. 

Mas também começa a ficar evidente que as montadoras que se interessarem em conquistar os bolsos e, sobretudo, os corações destes novos consumidores podem se preparar para lidar com um novo e mais elevado padrão de exigência.

Ainda bem. Que assim, de fato, seja.

Artigo publicado na edição 263 da Revista AutoData, julho de 2011.