Desde o ano passado, perguntas elaboradas em conjunto pela GfK CR Brasil e AutoData são incluídas em pesquisa Omnibus com objetivo de mapear a quantas anda o desejo de compra de automóveis, a forma como se pretende fazer o negócio e, em caso de financiamento, o prazo a ser utilizado.
A cada dois meses 1 mil pessoas são consultadas, por telefone, em doze diferentes regiões metropolitanas e capitais do País sobre seus planos para compra de veículos nos próximos seis meses.
E como a amostra é baseada no perfil da população entrevistada o resultado final da pesquisa permite que o resultado obtido seja fatiado por classe econômica, faixa etária, gênero e região geográfica.
Bons números. O resultado do recente estudo, realizado em fevereiro e março, mostra que exatos 10% da população brasileira, algo em torno de 19 milhões de pessoas, pensam em comprar um automóvel nos próximos seis meses, índice que é de 11% nas classes A e B e desce para 8% nas C e D.
Deste universo total 43%, ou cerca de 8,3 milhões, cogitam a compra de carro novo, 44% um usado e os 13% restante ainda não se definiram.
Importante: em 39% dos casos este será o primeiro automóvel do comprador – 22% nas classes A e B e 63% nas C e D.
Mais: 71% destes consumidores pensam em financiamento – índice que chega a 83% nas classes C e D. E na maior parte dos casos, 51%, os prazos serão iguais ou superiores a 24 meses.
É certo que nem todos conseguirão transformar o desejo por um veículo em compra efetiva. Mas estes dados parecem indicar que o setor automotivo não terá maiores dificuldades para alcançar a meta projetada para este ano, de venda em torno de 3,5 milhões de unidades.
Ao mesmo tempo. Estes mesmos dados mostram, também, o quanto este setor trafega, hoje, por terrenos que embora sejam inegavelmente férteis são, ao mesmo tempo, algo pantanosos e, assim, exigem cuidado. Muito cuidado.
O risco, no caso, vem da dependência cada vez maior que as vendas passam a ter daquilo que se poderia chamar de nova classe média nacional, que depende fundamentalmente do crédito para a compra do carro.
Nada parece indicar que existam maiores riscos de novas interrupções na oferta de crédito nos moldes das verificados no biênio 2008-2009.
No máximo eventuais dificuldades no controle da inflação nacional poderão levar ao aumento do custo interno do dinheiro. E isto, quando muito, pode reduzir o ritmo de incorporação de novos consumidores ao mercado – até porque, com o descompasso generalizado de oferta com demanda de mão de obra, os ganhos efetivos dos trabalhadores, seja no dissídio, seja por promoções ou até por troca de emprego, tem crescido mais do que os juros.
A questão é outra: quem acompanha este setor há mais tempo sabe o quanto o mercado automotivo é volátil no Brasil. É um setor que várias vezes já foi do céu ao inferno no curto espaço de trinta dias, com as vendas desabando quase que pela metade. E, em quase todos os casos, precisou de muito tempo depois, anos e anos, para conseguir retomar lugar ao menos no purgatório.
No Brasil, decorrência natural do peculiar perfil de renda de seus consumidores, o mercado automotivo ou avança em velocidade espantosa, como agora, ou simplesmente desaba do dia para a noite. Tudo na dependência da maior ou menor confiança dos consumidores com relação à manutenção futura de seu emprego.
E isto se dá basicamente por duas razões. A primeira delas é a obvia: só quem tem razoável certeza de que continuará empregado pelos próximos dois a três anos assume o risco de contratar um financiamento com prazos iguais ou superiores a 24 meses, usuais neste tipo de produto.
Adiamento explosivo. A outra razão pode até não ser tão obvia mas é, na prática, a que tem o poder de transformar o céu em inferno em meras 24 horas: nada é mais fácil para o consumidor do que adiar a compra de um automóvel por dois a três meses.
Afinal, boa parte dos consumidores vende um carro usado para comprar outro menos usado ou novo. E, assim, caso protele o negócio, o máximo de penalização que terá será a de continuar rodando com seu carro um pouco mais usado por mais tempo. Nada além disso.
O diabo é que quando dezenas de milhares de consumidores tomam esta decisão ao mesmo tempo, as vendas desabam. Do dia para a noite.
Não foram poucas as vezes em que isto aconteceu na história brasileira desde setor. E sempre pelo mesmo estímulo: noticiário noturno da televisão, em especial o Jornal Nacional, da Rede Globo, com notícias de demissões em massa no setor automotivo.
Vale ressaltar que, por alguma estranha distorção da cobertura jornalística nacional, demissões em massa só ganham direito a presença nos jornais noturnos se forem especificamente originadas pelo setor automotivo. Desta forma, quando acontecem na área automotiva, as demissões em massa são potencialmente as mais desastrosas. As outras, no mais das vezes, só conseguem minar a confiança dos consumidores depois que muitos primos, tios, irmãos e vizinhos já perderam o emprego.
Lições da crise. A turbulência financeira global de 2008-2009 evidenciou que, diante do baixo nível de informação dos consumidores brasileiros, mesmo com a economia mundial em queda, ainda assim bastou normalizar a oferta doméstica de crédito para que as vendas e a produção de automóveis retomassem rumo de novo recorde.
Esta mesma crise, todavia, mostrou também o quanto os empresários e os executivos que operam no setor automotivo nacional desconhecem o quanto do resultado de suas empresas é umbilicalmente dependente da manutenção da confiança dos consumidores diante do seu futuro. Tanto para o bem quanto para o mal.
Naquele final de 2008, começo de 2009, não foram poucos os que, de olho apenas no resultado de curto prazo, nos números do fim do mês ou do trimestre, rapidamente apelaram para a redução do quadro de funcionários. E, assim, só não detonaram uma crise de proporções dantescas graças à rapidez com a qual o governo conseguiu normalizar a oferta de crédito no setor.
Por tudo isto, ainda que até agora tudo pareça indicar que prosseguiremos neste e nos próximos anos em direção a mais recordes de vendas e de produção, sempre é prudente lembrar aos incautos que, neste nosso setor automotivo brasileiro, por suas características muito peculiares, executivo que ordena demissões em massa por impulso, como a primeira medida para salvar o resultado do trimestre, corre sério de risco de ver seu nome incluído na lista logo adiante.
E tomara que assim o seja, de fato. No mínimo por ter colocado em risco os resultados de todas as demais empresas.
Artigo publicado na edição 261 da Revista AutoData, maio de 2011.
A cada dois meses 1 mil pessoas são consultadas, por telefone, em doze diferentes regiões metropolitanas e capitais do País sobre seus planos para compra de veículos nos próximos seis meses.
E como a amostra é baseada no perfil da população entrevistada o resultado final da pesquisa permite que o resultado obtido seja fatiado por classe econômica, faixa etária, gênero e região geográfica.
Bons números. O resultado do recente estudo, realizado em fevereiro e março, mostra que exatos 10% da população brasileira, algo em torno de 19 milhões de pessoas, pensam em comprar um automóvel nos próximos seis meses, índice que é de 11% nas classes A e B e desce para 8% nas C e D.
Deste universo total 43%, ou cerca de 8,3 milhões, cogitam a compra de carro novo, 44% um usado e os 13% restante ainda não se definiram.
Importante: em 39% dos casos este será o primeiro automóvel do comprador – 22% nas classes A e B e 63% nas C e D.
Mais: 71% destes consumidores pensam em financiamento – índice que chega a 83% nas classes C e D. E na maior parte dos casos, 51%, os prazos serão iguais ou superiores a 24 meses.
É certo que nem todos conseguirão transformar o desejo por um veículo em compra efetiva. Mas estes dados parecem indicar que o setor automotivo não terá maiores dificuldades para alcançar a meta projetada para este ano, de venda em torno de 3,5 milhões de unidades.
Ao mesmo tempo. Estes mesmos dados mostram, também, o quanto este setor trafega, hoje, por terrenos que embora sejam inegavelmente férteis são, ao mesmo tempo, algo pantanosos e, assim, exigem cuidado. Muito cuidado.
O risco, no caso, vem da dependência cada vez maior que as vendas passam a ter daquilo que se poderia chamar de nova classe média nacional, que depende fundamentalmente do crédito para a compra do carro.
Nada parece indicar que existam maiores riscos de novas interrupções na oferta de crédito nos moldes das verificados no biênio 2008-2009.
No máximo eventuais dificuldades no controle da inflação nacional poderão levar ao aumento do custo interno do dinheiro. E isto, quando muito, pode reduzir o ritmo de incorporação de novos consumidores ao mercado – até porque, com o descompasso generalizado de oferta com demanda de mão de obra, os ganhos efetivos dos trabalhadores, seja no dissídio, seja por promoções ou até por troca de emprego, tem crescido mais do que os juros.
A questão é outra: quem acompanha este setor há mais tempo sabe o quanto o mercado automotivo é volátil no Brasil. É um setor que várias vezes já foi do céu ao inferno no curto espaço de trinta dias, com as vendas desabando quase que pela metade. E, em quase todos os casos, precisou de muito tempo depois, anos e anos, para conseguir retomar lugar ao menos no purgatório.
No Brasil, decorrência natural do peculiar perfil de renda de seus consumidores, o mercado automotivo ou avança em velocidade espantosa, como agora, ou simplesmente desaba do dia para a noite. Tudo na dependência da maior ou menor confiança dos consumidores com relação à manutenção futura de seu emprego.
E isto se dá basicamente por duas razões. A primeira delas é a obvia: só quem tem razoável certeza de que continuará empregado pelos próximos dois a três anos assume o risco de contratar um financiamento com prazos iguais ou superiores a 24 meses, usuais neste tipo de produto.
Adiamento explosivo. A outra razão pode até não ser tão obvia mas é, na prática, a que tem o poder de transformar o céu em inferno em meras 24 horas: nada é mais fácil para o consumidor do que adiar a compra de um automóvel por dois a três meses.
Afinal, boa parte dos consumidores vende um carro usado para comprar outro menos usado ou novo. E, assim, caso protele o negócio, o máximo de penalização que terá será a de continuar rodando com seu carro um pouco mais usado por mais tempo. Nada além disso.
O diabo é que quando dezenas de milhares de consumidores tomam esta decisão ao mesmo tempo, as vendas desabam. Do dia para a noite.
Não foram poucas as vezes em que isto aconteceu na história brasileira desde setor. E sempre pelo mesmo estímulo: noticiário noturno da televisão, em especial o Jornal Nacional, da Rede Globo, com notícias de demissões em massa no setor automotivo.
Vale ressaltar que, por alguma estranha distorção da cobertura jornalística nacional, demissões em massa só ganham direito a presença nos jornais noturnos se forem especificamente originadas pelo setor automotivo. Desta forma, quando acontecem na área automotiva, as demissões em massa são potencialmente as mais desastrosas. As outras, no mais das vezes, só conseguem minar a confiança dos consumidores depois que muitos primos, tios, irmãos e vizinhos já perderam o emprego.
Lições da crise. A turbulência financeira global de 2008-2009 evidenciou que, diante do baixo nível de informação dos consumidores brasileiros, mesmo com a economia mundial em queda, ainda assim bastou normalizar a oferta doméstica de crédito para que as vendas e a produção de automóveis retomassem rumo de novo recorde.
Esta mesma crise, todavia, mostrou também o quanto os empresários e os executivos que operam no setor automotivo nacional desconhecem o quanto do resultado de suas empresas é umbilicalmente dependente da manutenção da confiança dos consumidores diante do seu futuro. Tanto para o bem quanto para o mal.
Naquele final de 2008, começo de 2009, não foram poucos os que, de olho apenas no resultado de curto prazo, nos números do fim do mês ou do trimestre, rapidamente apelaram para a redução do quadro de funcionários. E, assim, só não detonaram uma crise de proporções dantescas graças à rapidez com a qual o governo conseguiu normalizar a oferta de crédito no setor.
Por tudo isto, ainda que até agora tudo pareça indicar que prosseguiremos neste e nos próximos anos em direção a mais recordes de vendas e de produção, sempre é prudente lembrar aos incautos que, neste nosso setor automotivo brasileiro, por suas características muito peculiares, executivo que ordena demissões em massa por impulso, como a primeira medida para salvar o resultado do trimestre, corre sério de risco de ver seu nome incluído na lista logo adiante.
E tomara que assim o seja, de fato. No mínimo por ter colocado em risco os resultados de todas as demais empresas.
Artigo publicado na edição 261 da Revista AutoData, maio de 2011.