Dos dados divulgados pela Anfavea no fim do primeiro semestre para mostrar a rápida e marcante deterioração do poder de competição global da indústria automotiva instalada no País há um em particular, o da questão cambial, que merece ser olhado mais de perto e com mais atenção.
O estudo realizado pela PricewaterhouseCoopers por encomenda da entidade mostrou que enquanto o real valorizou 29% sobre o dólar de 2005 a 2011 o peso mexicano sofreu desvalorização de 16% e o won coreano de 11%.
Não é propriamente exato, todavia, creditar-se a esta perversa situação cambial toda a responsabilidade pela atual dificuldade do setor automotivo local para manter suas exportações ou, mais grave, conseguir enfrentar as importações.
Realidade. Esta mudança na relação cambial, na verdade, apenas desnudou uma realidade que, se não for admitida, não terá também como ser enfrentada: tal como está hoje estruturado o Brasil, como país, não tem como possibilitar às suas indústrias, automotivas incluídas, nenhuma condição de enfrentar a competição global.
É isto o que explica a aparente incoerência de o poder de competição do setor automotivo, em particular, ter diminuído de forma tão marcante justamente no momento em que o sensível aumento do mercado interno e consequentemente de produção resultaram em palpáveis ganhos de escalas.
Na verdade não foi agora que o setor automotivo brasileiro deixou de ser competitivo. Em termos concretos, de tanto conviver com as deficiências estruturais do Pais, ele nunca foi competitivo. E só conseguia exportar e se defender dos produtos importados graças à proteção de uma relação cambial que falseava esta realidade.
Quando Silvano Valentino presidiu a Anfavea, em meados dos anos 1990, o setor automotivo já convivia, com duras dificuldades, com os efeitos da então ainda algo recente abertura dos portos aos carros importados.
Naquele tempo Valentino já dizia que, por mais que as montadoras e os fabricantes de componentes eliminassem todas as suas gorduras, por mais que reduzissem seus lucros a zero, ainda assim não haveria como o setor ser competitivo sem que o Brasil, como um todo, também enfrentasse e resolvesse suas deficiências estruturais.
Pois bem: os dados agora divulgados pela Anfavea mostram que, passados já quase quinze anos desde que Valentino deixou o comando da Anfavea, os problemas estruturais do País continuam praticamente os mesmos.
Com o agravante de que, agora, a nova realidade cambial que se seguiu à estabilização da economia brasileira por quase duas décadas retirou a rede de proteção que falseava esta dura realidade.
Ou seja, ao passar a retratar o Brasil economicamente estável a realidade cambial deixou de subsidiar as graves ineficiências estruturais do País: do precário sistema de educação às dificuldades de logística, passando por um Estado bem mais pesado do que a sociedade como um todo consegue suportar.
Neste contexto restariam, a rigor, duas alternativas. A primeira delas seria promover rápida e contundente desvalorização do real frente ao dólar e, assim, readequar a relação cambial para aquela parte do Brasil que insiste em permanecer subdesenvolvida e, assim, precisa ser artificialmente protegida da concorrência externa.
Preferível. A outra alternativa, certamente a preferível, seria aceitar esta nova realidade cambial como definitiva e, a partir dela, corrigir tudo o que deve ser corrigido para permitir que, mesmo com esta nova relação real-dólar, toda a área industrial do País, setor automotivo incluído, consiga ser globalmente competitiva.
É bem provável, aliás, que o Brasil não tenha escolha. Afinal, dentro do atual panorama da economia global não há muito o que se possa fazer para promover a desvalorização do real frente ao dólar. É até mais provável que aconteça justamente o contrário: valorização ainda maior da moeda nacional.
Restará, então, como única alternativa, enfrentar as ineficiências: resolver as questões estruturais, aprimorar o sistema educacional e de saúde, promover a reforma tributária e administrativa, diminuir o impacto dos encargos sociais nos custos da mão de obra, eliminar os nefastos e custosos efeitos da corrupção e, ainda, reduzir o peso do Estado.
Restará, enfim, ao Brasil, a única alternativa de dar o restante do salto da infância subdesenvolvida que carecia do subsídio cambial para um novo patamar de país adulto, maduro, eficiente, capaz de competir por suas próprias qualidades e pela qualidade de sua gente.
Artigo publicado na edição 264 da Revista AutoData, agosto de 2011.